segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Um conto do caminho...


Andar sempre parecia perigoso. Havia muitas pedras no caminho. As paisagens, lindas por sinal, tentavam distrair sua atenção, mas ele estava resoluto. Não cederia à beleza do sol, ao cantar dos pássaros, às flores que brilhavam à margem da estrada e aos desvios que convidavam para o inesperado.

Já tinha decidido o seu rumo. Seu destino já estava traçado. Tinha fé nas promessas que ouvira desde a infância e estava convicto de que estava na direção certa. Ao longo da caminhada procurava atrair outros para si e convencê-los a juntarem-se a ele. A maioria não o seguia, embora alguns cedessem à sua persuasão. Todos o ouviam com atenção e até caminhavam por alguns metros com ele mas logo se distraiam. Crianças à beira da estrada sorriam, chamavam pelo seu nome como que convidando-o à diversão. Mas ele desviava o olhar.

Depois de tanto caminhar, parou um minuto para descansar. Estava exausto e o suor fez com que sua camiseta grudasse no corpo, causando incômodo e náusea. Estava com sede. Seu cantil se esvaziara e a comida que trazia na mochila tinha se estragado.

Não muito distante observou um pequeno riacho. A água parecia límpida e fresca. A luz do sol produzia reflexos que cintilavam com o mover da correnteza. Hesitante, ousou sair do caminho e ir em direção ao riacho. Encheu o cantil e bebeu vagarosamente, procurando saborear cada gota que descia para o seu corpo. Bebeu uma vez, duas, três... até que sentiu-se saciado.

Repentinamente ouviu vozes infantis. Logo, crianças o rodearam, de mãos dadas, cantando uma canção que ele achava já ter ouvido quando era pequeno. Um cãozinho pulou para ele como que chamando-o para brincar. Acariciou o animal e, para sua surpresa, sentiu-se muito bem. Uma mão no seu ombro o fez voltar-se para trás. O homem que sorriu para ele era muito parecido com alguém do seu passado mas não conseguiu lembrar-se quem era. Apoiando-se no seu ombro, o indivíduo, que mancava de uma perna, caminhou com ele em direção a algumas árvores e começou a contar-lhe uma história. A história parecia familiar mas não tinha certeza se já a tinha realmente ouvido alguma vez.

Aos poucos outros se juntaram a eles e de repente tudo parecia uma festa. Alguns dançavam e falavam com ele como se já o conhecessem há muito tempo e como se sempre tivessem convivido juntos.

Quando veio a noite todos se recolheram e ele ficou só, à beira do riacho. Ali, sob a luz da lua e ao som do canto de uma coruja, sentiu solidão. Preocupado, lembrou-se do caminho. Vagarosamente pôs-se a caminhar em direção à pequena estradinha onde, de longe, viu alguns. Quando se aproximou, ninguém pareceu notar sua presença. Uns poucos sussurraram seu nome, chamando-o para se juntar a eles.

Parou a uma certa distância. Sentou-se calmamente na grama. Um misto de ansiedade e alegria reprimida o dominava. Resolveu ficar ali mesmo. Não sabia o que a manhã lhe traria mas parecia não querer ter certeza de mais nada.

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